quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Poeminha de Verão

Braços
De afeto farto
Cabelos
De afável olfato
Derreto-me
Estúpido fato
E morro
Estupefato

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Os Mendigos

Eles se entrelaçavam
E olhavam-se nos olhos ternamente
Compartilhavam proteção
Deitados na calçada
De uma ladeira, das muitas
Que pulei carnaval em Santa Teresa

Uns julgariam seus sexos
Outros, suas idades
Ainda, quantos níqueis carregavam
Apenas me importei com a capacidade
De amar, proteger, ignorar
A multidão

E na responsabilidade sustentada
Pelo véu de freira à cabeça
Eu os abençoava
Como se fosse santo

domingo, 22 de janeiro de 2012

Sobre escritores e seus trejeitos.

Escritores tem um modo poético de sofrer. Eles têm personalidade peculiar. E não existe exceção a tal regra. Estão acostumados a criar personagens e determinarem as diretrizes de seus devaneios em papel. Brincam de Deus. São roteiristas, diretores, podem ser inspirações para os seus próprios personagens. Mas nunca os são. Escritores não sabem ser personagens. Exatamente por definirem rumos. E quando eles se enxergam personagens de uma história que eles não têm tal poder de decisão, se perdem.  Eles criam conflito, para darem clímax as suas estórias.  Conflitos: os que funcionam à base de pena e tinteiro contam os segundos para escreverem algo onde haja conflito. De interesse, de ego, crise existencial, traições, desconfianças, amores proibidos, lutas, anseios... Escritores vivem pelos conflitos.  E pelos vinhos baratos, e pelos dois cigarros e meio queimados pelo chão de suas casas. Escritores enlouquecem por não serem donos da fábula em que vivem, do cenário em que respiram, da maquiagem que usam, dos semblantes que se deparam pelas ruas. Eles imaginam os amores ideais que façam qualquer um amargurar-se por não estarem vivenciando tais. Porém não sabem lidar com seus próprios amores.  São presos aos grilhões de suas imaginações. Eles apagam, ou rasgam páginas e páginas quando, posteriormente, não gostam do resultado. Mas não podem rasgar dez segundos de suas vidas, como se nunca tivessem sido escritas. É o perigo de se brincar de Criador quando se é mortal. Sim, são meros mortais brincando de inventor de mundos.  Quando seus próprios mundos, digo, o que estão inseridos, se desabam ao redor. O tempero visual que rege a vida se azeda, e se distancia. Eles pecam. Sim, eles certas horas são seres supremos e intocáveis, e em outras... Pecam. Contradizem suas palavras e ações. Mas não que suas palavras valham menos que as ações. Muito pelo contrário, eles valorizam mais as suas palavras do que suas vidas. É fácil enganá-los. Pode agir errado, e falar o certo e pronto, conquistou-os. E mesmo em qualquer estado errôneo, desencontrado, desleixado, incabível, eles não mentiriam, pois, os mesmos, vivem da sinceridade de suas frases. Escritores carregam a sombra de si. O ego inflado e o coração murcho. Principalmente os poetas, esses sofrem de qualquer modo: parnasiano, romântico, barroco... São melancólicos demais para o mundo e, o mundo é melancólico demais pra eles. E aí está seu combustível artístico.

Eu deveria ter sabido de tudo que agora digo antes de escrever meu primeiro verso, minha primeira carta, minha redação do vestibular, antes mesmo, de ter descrito minha primeira admiração pelos céus estrelados ou pelo pôr-do-sol de uma praia, ou montanha qualquer.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Porque metade de mim se perdeu no vazio da indiferença. Fez morada ao primeiro anoitecer da impaciência. Caçou medo para poder se alimentar. Bebeu o néctar da destemperança em cuia de dúvida. Sentou-se ao mirante do desengano. Penou, com afinco quase mórbido. Somente por ter, como único objetivo, a melhor vista possível para o amanhecer do sorriso no rosto de quem levou a outra metade embora.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Prelúdio

Nada disse. Reparei. Olhei. Fitei. Tinha belos olhos. Ora arregalava-os, como quem estava sem seus óculos. Ora recolhia-os, não sendo mais necessário visualizar seu entorno. Olhos bastante conhecidos. Olhos que pareciam cumprimentar a todos como um velho prefeito de cidade pequena. "Seja bem-vindo" - diziam-me, os olhos.

Não era do tipo tagarela. Era afetuosa, expontânea. Vez ou outra explodia em movimentos bruscos. Assim eram seus abraços que, mesmo sem razão evidente de existir, entregavam-se. É o tipo de abraço que transmite uma energia entre as epidermes que se chocam. Deixando a pele marcada, deixando cheiro, rastros de vivacidade. Quando falava, era ligeira. Se existiam vírgulas, eram grudadas às palavras.

De cá, eu procurava uma brecha que abreviasse meu desejo: uma medida, uma concordância verbal, uma angulação, até um cílio mais levantado que os demais. Ao reparar minha inquietude, ela me sorriu. Sorriu, assim, sem finalidade. E o meu mundo - ah, o meu mundo... - nunca mais foi o mesmo.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Enquanto Chovia

Saí eu de uma festa, animado. Mas a chuva que caia do lado de fora insistia em gelar minha alma. Me despedi de duas amigas que comigo se aventuraram. Fiz sinal pra um táxi que passara. E ele... passara. Fiz sinal pro próximo. Abri a porta e sentei no banco do carona - não faço esse tipo que senta no banco de trás, com ar pomposo e cheio de si. Gosto de sociabilidade.

- Essa chuva é bom pra chegar em casa e dormir com aquele barulhinho, né? - Puxou conversa o que sentava à esquerda.

- Exato. Hoje em dia existem uns sites que simulam esse som da chuva. Mas o bom é o natural mesmo. E na minha rua ainda tem aqueles gatos que miam a noite toda. Em dias chuvosos eles somem.

- Ah, minha mulher tem um gato.

- E você gosta?

- Gostar dele, eu gosto. Mas não sei se a recíproca é verdadeira.

- Gatos...

- É, eu gosto de passarinhos. Tenho um trinca-ferro que canta que é uma beleza nas manhãs de sol. - Pensei: "Quem gosta de passarinhos não os tem". Mas não quis entrar nos meus idealismos naquele momento.

- Deve ser bonito de se ouvir.

- Esse sinal aqui é meio chato... - murmurou - Mas e a festinha que você tava? Muita menininha?

- Ih, cara. Tem casos onde é melhor ter uma só. Mulher já é bicho perigoso. Juntando muitas no mesmo lugar então...

- Isso é verdade. "Ter uma só", então você é do tipo que prefere namorar. Com essa idade? Tá fora da crista da onda. - Disse, usando uma gíria fora da crista do século.

- Não, na verdade não. Apesar de meus namoros terem sido razoavelmente longos. Eu prefiro estar com alguém do que ter alguém. "Ter" é de uma sensação de posse, definida conforme o desenvolvimento dessa sociedade materialista que nos encontramos, que eu não admiro. "Estar" é de uma sensação de companheirismo, cumplicidade, é não estar acima ou abaixo, é estar ao lado.

- Gosto da sua dialética! Você deveria escrever essas suas engenhosidades. Já pensou em ter um blog? Meu sobrinho tem um que ele escreve umas coisas, mas não entendo muito bem disso não.

- Blog? Eu? Não. Sou muito intimista. Me sinto exposto, ainda que de uma forma segura, quando alguém me lê.

- Vou ligar uma música. Quer ouvir música?

- A conversa está agradável, pra mim está bom só com o barulho da chuva.

- Então tá ok!

- A próxima saída da Linha Amarela, heim!

- Conheço esse Rio de Janeiro de cabo à rabo, meu amigo, pode deixar. - ofendeu-se.

- Mas voltando a falar de mulheres. Estou em uma enrascada daquelas, amigo...

- Ih! Já vi tudo!

E a conversa intimista continuou de um modo complacente. E continuou. E continuou... Até que eu paguei a corrida. Houve um aperto de mãos. Saí do carro amarelo e azul pro meu portão de cor verde. Ao adentrar em casa, concluí: "Que engraçado esses psicólogos que fazem bico de taxista".

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Toque

Carolina toca flauta
Melódicas canções
Ela me toca, falta
Ar nos meus pulmões

Mariana toca violão
Empolgada! Uma louca!
Ela me toca, faltam
Palavras na minha boca

Teresa toca zabumba
Mais uma de suas belezas
Ela me toca, surgem
No estômago, borboletas

De cá, suspiro, me atento
A ouvir com exaustão
Se é batuque, corda ou sopro
Que faz dançar meu coração

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

A Revolta dos Bichos

O que se passa?
O que se passa?
Questionou a garça

Passatudo
Passatudo
Disse o guaxinim

- Foi o primeiro assalto na história da floresta.

sábado, 5 de novembro de 2011

Primeiro Passo

Os mais belos retratos, se ainda acoplados a seus rolos de filme, sem serem estes revelados, não deixarão de ser negativos. Assim são alguns sentimentos.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

As Tais Borboletas

Cá pra nós, estou inquieto
Meu coração forjado em concreto
Grita ao vê-la perto
No mesmo tempo e lugar

Vejam só, que absurdo
Meu tolo coração sem uso
Pulsar por puro impulso
D'ela impressionar

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Perplexidade

Entrego meu corpo
Meu jogo
Minha cama

Dou o afago maior
Te afogo em suor
Inflamas

Sussurro ser tua
Dentro de tuas
Entranhas

Só não digo ser imortal
Posto que tal
É chamas

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Autodefinição.

Sinto-me engraçado pelo tanto que me exponho contraditório. Acho que sou um palito de fósforo elétrico.

domingo, 11 de setembro de 2011

A Lista

Avisto tu pela metade
Do inteiro que não mais vestes
Teu amor, onde puseste?
Teu bem-querer, onde arde?

Amansa dores covardes
Que lá longe está o porto
Lembra-te que foste topo
Entre tantas prioridades

terça-feira, 5 de julho de 2011

Retalhos

E lá estávamos, em movimentos regidos por sambistas novatos. Apesar da preocupação, meu pé passou intacto. Lembro do refrão de uma composição do Benito, foi um momento em que a abraçara mais forte e ela repousara a cabeça no meu ombro direito. Um daqueles momentos que o local cheio parece não ter ninguém, como aquela cena de "Orgulho e Preconceito". E eu senti que ali naqueles dois corpos colados havia uma brasa, faltou alguém assoprá-la.