domingo, 22 de janeiro de 2012

Sobre escritores e seus trejeitos.

Escritores tem um modo poético de sofrer. Eles têm personalidade peculiar. E não existe exceção a tal regra. Estão acostumados a criar personagens e determinarem as diretrizes de seus devaneios em papel. Brincam de Deus. São roteiristas, diretores, podem ser inspirações para os seus próprios personagens. Mas nunca os são. Escritores não sabem ser personagens. Exatamente por definirem rumos. E quando eles se enxergam personagens de uma história que eles não têm tal poder de decisão, se perdem.  Eles criam conflito, para darem clímax as suas estórias.  Conflitos: os que funcionam à base de pena e tinteiro contam os segundos para escreverem algo onde haja conflito. De interesse, de ego, crise existencial, traições, desconfianças, amores proibidos, lutas, anseios... Escritores vivem pelos conflitos.  E pelos vinhos baratos, e pelos dois cigarros e meio queimados pelo chão de suas casas. Escritores enlouquecem por não serem donos da fábula em que vivem, do cenário em que respiram, da maquiagem que usam, dos semblantes que se deparam pelas ruas. Eles imaginam os amores ideais que façam qualquer um amargurar-se por não estarem vivenciando tais. Porém não sabem lidar com seus próprios amores.  São presos aos grilhões de suas imaginações. Eles apagam, ou rasgam páginas e páginas quando, posteriormente, não gostam do resultado. Mas não podem rasgar dez segundos de suas vidas, como se nunca tivessem sido escritas. É o perigo de se brincar de Criador quando se é mortal. Sim, são meros mortais brincando de inventor de mundos.  Quando seus próprios mundos, digo, o que estão inseridos, se desabam ao redor. O tempero visual que rege a vida se azeda, e se distancia. Eles pecam. Sim, eles certas horas são seres supremos e intocáveis, e em outras... Pecam. Contradizem suas palavras e ações. Mas não que suas palavras valham menos que as ações. Muito pelo contrário, eles valorizam mais as suas palavras do que suas vidas. É fácil enganá-los. Pode agir errado, e falar o certo e pronto, conquistou-os. E mesmo em qualquer estado errôneo, desencontrado, desleixado, incabível, eles não mentiriam, pois, os mesmos, vivem da sinceridade de suas frases. Escritores carregam a sombra de si. O ego inflado e o coração murcho. Principalmente os poetas, esses sofrem de qualquer modo: parnasiano, romântico, barroco... São melancólicos demais para o mundo e, o mundo é melancólico demais pra eles. E aí está seu combustível artístico.

Eu deveria ter sabido de tudo que agora digo antes de escrever meu primeiro verso, minha primeira carta, minha redação do vestibular, antes mesmo, de ter descrito minha primeira admiração pelos céus estrelados ou pelo pôr-do-sol de uma praia, ou montanha qualquer.

sábado, 21 de janeiro de 2012

1/2

Porque metade de mim se perdeu no vazio da indiferença. Fez morada ao primeiro anoitecer da impaciência. Caçou medo para poder se alimentar. Bebeu o néctar da destemperança em cuia de dúvida. Sentou-se ao mirante do desengano. Penou com afinco quase mórbido. Somente por ter, como único objetivo, a melhor vista possível para o amanhecer do sorriso no rosto de quem levou a outra metade embora.