domingo, 23 de junho de 2013

Àusência

Um homem experimentou a saudade
E sobre a saudade concluiu: 
Quem diz que mata, exagera 
Quem diz que não, nunca a sentiu

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Uma Crônica sobre Soluço, Simpatia - Um Pequeno Comentário sobre Quem Toca Legião Urbana em Roda de Viola - Pink Floyd, Flash, Alienígena, Collant e Dívida - Necessariamente Nesta Ordem


- Fade in -






- Ic! Ic! Ic...

Fazia mais de duas horas que soluçava. Não conseguia parar! Não conseguia dormir! Lembrei de uma simpatia antiga de colocar um papelzinho na testa. 

- É isso! - ecoou em minha mente. 

Num quarto escuro como noite sem luar, estiquei minha mão direita pro criado-mudo - que ainda que não fosse mudo, não teria muito o que dizer de mim, era minha primeira noite na cidade - e apalpei o que parecia ser um pequeno papel. Sem muita certeza, coloquei na língua e logo na testa.

Senti um certo sabor ao colocar na língua, mas devido ao forte tempero do jantar daquela noite, não me deu pra diferenciar muito. Pensei ser um daqueles chicletes que parecem papel arroz e aderem à boca. Cinco minutos de papel na testa e o soluço de mais de duas horas acabara. Sem pestanejar, chiclete na boca. 

Eu havia marcado de encontrar uns amigos pra fazer uma fogueira e tocar uma viola e, naquela de sempre, falar que tava desanimando a galera quando alguém puxasse Legião Urbana. 

Acendi a luz. Fui ao banho e vestir-me, necessariamente nesta ordem. Já pronto, esperei 20 minutos pra ficar compatível com o horário de chegada de todos. Passados os minutos, parti ao encontro dos cretinos.

No meio do caminho, me senti estranho, como se meu corpo estivesse levando pequenos choques e meus músculos enrijecendo em alguns espasmos. Jurei beber menos café, me pareceu excesso de cafeína. 

Lá fui eu andar pela primeira vez na madrugada de tal cidadezinha. Devia haver uns 7000 habitantes lá. A partir de um tempo andando, comecei a achar que errei o caminho. Não me fazia mais sentido as ruas. Ah, importante dizer que estava ouvindo "The Dark Side Of The Moon", no modo aleatório, com o fone de ouvido, diretamente do meu humilde celular. Quando constatei que estava perdido, estava tocando "Brain Damage" - "the lunatic is in my head..." - o que me pareceu sarcasmo do destino.

Enfim, não encontrava uma alma viva no meio das ruas que me enfiei. Fui tentando descobrir o caminho do meu jeito, não sei se por intuição, guiando-me pelas estrelas ou simplesmente andando pela vontade de andar - como eu estava com vontade de andar!

Em algum momento parei para admirar o céu. As nuvens passavam em formas diversas. Via cardumes, palafitas, rolos compressores... Por um instante eu pisquei, e quando abri o olho novamente, um flash me atingiu de cima! Não entendi bulhufas! Máquinas fotográficas no meio do nada?! Não me parecia coerente. Por uns segundos fiquei atordoado, até me deu vontade de sentar até recuperar a normalidade da visão, mas aguentei firme em pé.

Ao recuperar, olhei pra tudo que é canto e não tive a menor ideia de onde veio o tal flash. O que me assustou, resolvi andar no sentido contrário que ia, cada vez mais rápido.

Alguns minutos depois, com o coração acelerado, subi uma calçada com um grande muro de granito à direita - meus olhos só fitavam a calçada, como um cão assustado.

Quando enfim tive coragem de levantar o rosto, deparei-me com uma criatura magra de olhos vermelhos e arredondados com - sei lá - um metro e oitenta cinco de altura. Me acenava com três dedos! 

- FUDEU! UM ALIENÍGENA! - este pensamento me atingiu a cabeça como um raio!

Peguei o primeiro rumo à esquerda e corri que nem jamaicano de collant amarelo e verde!

Logo identifiquei que era o caminho da minha pousada. Corri ainda mais rápido. Passei pela recepção. Subi as escadas que rangiam. Entrei no quarto com toda pressa, tive nem problemas em acertar a fechadura. Ao fechar a porta, meu amigo que me trouxera à cidade e dividia o quarto comigo tomou um susto.

- Cara, que houve? Tu tá pálido!

E eu tomei um susto maior ainda! Que se o soluço não tivesse passado até aquela hora, iria passar certamente nesse susto!

- E você?! Não combinamos de nos encontrar no bar?!

- Sim! Combinamos! Mas ainda faltam vinte minutos. Vim tomar um banho e me vestir pra ir. - necessariamente nesta ordem.

Olhei no relógio e, realmente, ainda faltavam vinte minutos! No dado momento, começa a tocar "Time" no fone direito - o esquerdo eu havia deixado pendurado na camisa, para melhor dialogar.

- Não é possível! Horas atrás eu estava com soluço! Fiz a simpatia de colocar o papelzinho na testa! Que eu ainda não sei se é chiclete... Mas funcionou! Aproveitei o fim do soluço para tomar um banho e me vestir. - necessariamente nesta ordem - E aí já faltavam vinte minutos! - enquanto eu me exaltava no discurso, o ouvinte da cena estava quieto debaixo do chuveiro do outro lado da porta - Fui para o bar! Errei o caminho! Me perdi! Teve um grande flash na minha cara no meio do porra nenhuma! Fiquei assustado e corri! Bati de frente com um alienígena! Agora eu tenho certeza que aquele flash era a nave...



Enfim ele iria me interromper:



- Você reparou que tinha uma estátua de alienígena no centro da cidade quando viemos, né?

Eu havia reparado! Mas no calor do momento tivera eu esquecido. Me pareceu coerente o que insinuara. Resolvi aceitar tal suposição vinda da parede fina que separava o banheiro e o quarto como verdade.

- Ih.... É mesmo! - respondi assim, mas acho que ainda havia uma pequena parte de mim que acreditava em algum tipo de abdução. - Eu tenho cada uma!






- Fade Out-








Cinco segudos, conta aí.






- Fade in - 






- Ei, cara! O papelzinho que você achou que era chiclete... Estava em cima do criado-mudo?

- Sim.

- Você mascou depois?

- Aham.

- Ok. Me deve 30 reais.






- Fade out -

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Autonomia

Arcaicos usavam pena
Esferografo, pois sou moderno
Cá registro minha admiração
Ao findar deste caderno

Ilumina-nos o sorriso marfim
Embeleza bocas tuas e minhas
Sei, na pauta da vida, até o fim
Nós
determinamos
a
quantidade
de
linhas

quinta-feira, 4 de abril de 2013

O Caso da Contemplação Pungente

Invadia-me os olhos, abaixo do chapéu-panamá
Não por oftamologia, sim por psicologia
Aquecia o sangue à análise da retina fria
Revirava-me o estômago uma panapaná

Com a serenidade do habitante de monastério
E esguias pernas de garça - sua graça?
Causara-me o torpor do vinho, mil taças
Não estava em suas palavras o mistério

Fulgor duradouro, desmantelador, um trauma!
Ainda que meus lábios só vinham o nome informar
Seu olhar fronteiro parecia evidenciar
Os segredos mais dissimulados de minh'alma

segunda-feira, 18 de março de 2013

Soneto da Penosa Imensidade

É retiro que não mais me apetece
Infindável gangorra em tons azuis
Soa-me como um inocente blues
De reunidas mãos, em sinal de prece

Em índole tunante fiz porto
Afável cais em bela marina
Fabulosas janelas de morfina
Aninham-me o coração semimorto

Há, contudo, que o Atlântico insiste
Em presença, que à fraca mente acalma
E que nele hei de morrer ancorado

Há dez docas, vento tem segredado
Zunindo em minha condenada alma
- Vida é onda, e o mar é sempre triste

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Tenuidade


Mal querer, castigado refém
Açoitado em nome do pudor
Lembrarão eles, pois bem
Respiradores de amor
Que o "bem-me-quer" também
Despedaça a pobre flor?

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Delatorandorinha


Andorinha lá fora está dizendo:
- Abandonaste a poesia! Abandonaste a poesia!

Andorinha, andorinha, não sabes como estou!
Não abandonei a poesia, a poesia me abandonou.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Versinhos de Bem-Me-Quer

Brincou de ser favorita
Sorriu sem ser amor
Se a vida ficou colorida
Você foi o lápis de cor

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Dilaceração

Sorrelfa, extrapola os limites do meu verso,
Despeço.
Soturna, evade do alcance de meu braço,
Despedaço.

Cabeça-Ponta


Ao avesso, interpretei-me:
Batman fantasiado de Wayne
Saxofone tocando o Coltrane

sexta-feira, 1 de junho de 2012

A Aflição do Arretado Inimigo do Vento

Ventou ventania forte
E levou minha morena embora
Foi tremenda falta de sorte
Ventar por aqui agora!

Vou achar a estrada do vento
E buscar minha morena-pipa
Talvez pro final de novembro
Eu volte com boa notícia

Que o frio não a açoite
Enquanto eu não apareça
Pra ninar seu sono à noite
E na manhã afagar sua cabeça

Subo até o céu para com Deus
Reclamar do ar em movimentação
Que levou embora o que é meu
E só me fez ter lamentação

Trarei de volta minha doce morena
Nem que encare uma Odisséia
Por ela encho o jardim de falena
E mato vinte Leões de Neméia

Domo Minotauro pelo chifre
Enfrento até a tal sereia Iara
Pra te voltar com peito em riste
E nadarmos nus em Jericoacoara

Mas vai ver não precisa escarcéu
Vento que venta aqui, venta lá
E o vento a volte com um véu
Para nós podermos casar

Vou te tratar igual fulô
Te guardar no coração
Pra todo dia morrer de amor
Que nem chuva no sertão!

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Àquele que mata a tristeza da gente

O mundo fez-se frio
Numa rua estreita
Que feliz me aceita
No Centro do Rio

Às palmas, a tarde varo
Não marco bobeira
Quando puxam Nogueira
Nem quando Clara, claro

Visa-me a mulata
Com a negra manha
Ao Canto de Ossanha
(Que sempre me arrebata)

Contente por inteiro

Do samba, só a nata
Na mão, só a gelada
Ao lado, companheiros

Um dia, aprenderão
Por tardar, com rosto rubro
Onde cavaco chora
Tristeza não faz muro
Malandro não dá furo
E felicidade não vê hora

terça-feira, 10 de abril de 2012

Feixe

Fito
A fita
Fixa
Fatiar
Feito
Faca
Fraca
Que afaga

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Nebulosa

Escadas acima
Até o terraço
No caminho
Cansaço
Noite silenciosa
Já avistava
A névoa no ar
Que me agradava
O estresse desfeito
A cabeça feita
Visão se estreita
Pra que a retina usufrua
Como eram bonitas
As nuvens escamosas
Com pintas de estrela
Desviando da Lua