sexta-feira, 1 de junho de 2012

A Aflição do Arretado Inimigo do Vento

Ventou ventania forte
E levou minha morena embora
Foi tremenda falta de sorte
Ventar por aqui agora!

Vou achar a estrada do vento
E buscar minha morena-pipa
Talvez pro final de novembro
Eu volte com boa notícia

Que o frio não a açoite
Enquanto eu não apareça
Pra ninar seu sono à noite
E na manhã afagar sua cabeça

Subo até o céu para com Deus
Reclamar do ar em movimentação
Que levou embora o que é meu
E só me fez ter lamentação

Trarei de volta minha doce morena
Nem que encare uma Odisséia
Por ela encho o jardim de falena
E mato vinte Leões de Neméia

Domo Minotauro pelo chifre
Enfrento até a tal sereia Iara
Pra te voltar com peito em riste
E nadarmos nus em Jericoacoara

Mas vai ver não precisa escarcéu
Vento que venta aqui, venta lá
E o vento a volte com um véu
Para nós podermos casar

Vou te tratar igual fulô
Te guardar no coração
Pra todo dia morrer de amor
Que nem chuva no sertão!

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Àquele que mata a tristeza da gente

O mundo fez-se frio
Numa rua estreita
Que feliz me aceita
No Centro do Rio

Às palmas, a tarde varo
Não marco bobeira
Quando puxam Nogueira
Nem quando Clara, claro

Visa-me a mulata
Com a negra manha
Ao Canto de Ossanha
(Que sempre me arrebata)

Contente por inteiro

Do samba, só a nata
Na mão, só a gelada
Ao lado, companheiros

Um dia, aprenderão
Por tardar, com rosto rubro
Onde cavaco chora
Tristeza não faz muro
Malandro não dá furo
E felicidade não vê hora

terça-feira, 10 de abril de 2012

Feixe

Fito
A fita
Fixa
Fatiar
Feito
Faca
Fraca
Que afaga

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Nebulosa

Escadas acima
Até o terraço
No caminho
Cansaço
Noite silenciosa
Já avistava
A névoa no ar
Que me agradava
O estresse desfeito
A cabeça feita
Visão se estreita
Pra que a retina usufrua
Como eram bonitas
As nuvens escamosas
Com pintas de estrela
Desviando da Lua

terça-feira, 20 de março de 2012

O Mundo Anda Tão Complicado

Entro com um sorriso. Há nele algo. Algo que ressalta uma beleza que, até então, era nova pra mim.

No lado externo, uma garoa insistia em cair. O que fez ele reparar nas minhas meias molhadas e, apesar da diferença no tamanho dos nossos pés, procurar um par de meias que em mim coubesse. Sabia que eu adorava ficar de meias.

Chegamos há pouco da sessão das dez e, como de costume, eu não tinha que me preocupar com o horário que iria despertar. O que era bom, porque a bateria do meu celular iria me deixar na mão, como sempre.

Ainda está em processo de mudança para este local, mas acredito que, apesar do fogão, geladeira, cama, aparelho de som e televisão que havia carregado para o novo apartamento, a maior mudança em sua vida que aqui se encontra é, de fato, eu.

Apesar de não morarmos juntos, tenho a chave. Nunca me foi útil, pois nunca entrei sem ele estar. Faço esse tipo meio-tímida-meio-educada.

Final de semana farei uma feijoada. Ele pode chamar os amigos. Aposto que vai cantar aquela música do Chico quando eu compartilhar a minha ideia. Ele adora Chico, foi o primeiro presente que me deu na vida, uma coletânea do Chico em um aniversário meu. Definitivamente, farei uma feijoada.

- Estou com sono. Vem dormir agora?

E lá vou eu, mas não devo pegar no sono ainda, vou assisti-lo dormir por um tempo. Acha que não durmo a noite, pois sempre que acorda me flagra fitando o seu rosto.

Por mim, ficaríamos para sempre nessa proteção que desenvolvemos em cada lugar que possamos nos tocar. Afinal, lá fora, o mundo anda tão complicado...

quinta-feira, 8 de março de 2012

Oito de Março

Mulheres, admiradas à exaustão
Banhadas em fonte de ternura
Masculina alma, com calma, jura
Dedicar-lhes verso, pintura, canção

Ah, mulheres, o que quereis?
Somos fracos frente a vós
E não há força dentro de nós
Que não morra diante a vocês

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Confortável Purgatório

Na tempestade de outrora
Minha alma pairou
No relógio-qualquer-hora
Que o vento-leste levou

Apetite atravessado
Que rejeita e quer
Se vira do modo que der
Mundano, desvairado

Intrínseco gosto-café
Do querer abastado
Prometo durar até
Desalentar-se, ser fardo

Importuna à santa rosa
Que exponha em curto verso
A ambição que confesso
Cobiçar em excesso-prosa

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Caloríficos

E nas noites frias
Eu a mantinha
Agarradinha
Quentinha
Embaixo
Bem de baixo
Da minha mantinha

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Poeminha de Verão

Braços
De afeto farto
Cabelos
De afável olfato
Derreto-me
Estúpido fato
E morro
Estupefato

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Os Mendigos

Eles se entrelaçavam
E olhavam-se nos olhos ternamente
Compartilhavam proteção
Deitados na calçada
De uma ladeira, das muitas
Que pulei carnaval em Santa Teresa

Uns julgariam seus sexos
Outros, suas idades
Ainda, quantos níqueis carregavam
Apenas me importei com a capacidade
De amar, proteger, ignorar
A multidão

E na responsabilidade sustentada
Pelo véu de freira à cabeça
Eu os abençoava,
Como se fosse santo

domingo, 22 de janeiro de 2012

Sobre escritores e seus trejeitos.

Escritores tem um modo poético de sofrer. Eles têm personalidade peculiar. E não existe exceção a tal regra. Estão acostumados a criar personagens e determinarem as diretrizes de seus devaneios em papel. Brincam de Deus. São roteiristas, diretores, podem ser inspirações para os seus próprios personagens. Mas nunca os são. Escritores não sabem ser personagens. Exatamente por definirem rumos. E quando eles se enxergam personagens de uma história que eles não têm tal poder de decisão, se perdem.  Eles criam conflito, para darem clímax as suas estórias.  Conflitos: os que funcionam à base de pena e tinteiro contam os segundos para escreverem algo onde haja conflito. De interesse, de ego, crise existencial, traições, desconfianças, amores proibidos, lutas, anseios... Escritores vivem pelos conflitos.  E pelos vinhos baratos, e pelos dois cigarros e meio queimados pelo chão de suas casas. Escritores enlouquecem por não serem donos da fábula em que vivem, do cenário em que respiram, da maquiagem que usam, dos semblantes que se deparam pelas ruas. Eles imaginam os amores ideais que façam qualquer um amargurar-se por não estarem vivenciando tais. Porém não sabem lidar com seus próprios amores.  São presos aos grilhões de suas imaginações. Eles apagam, ou rasgam páginas e páginas quando, posteriormente, não gostam do resultado. Mas não podem rasgar dez segundos de suas vidas, como se nunca tivessem sido escritas. É o perigo de se brincar de Criador quando se é mortal. Sim, são meros mortais brincando de inventor de mundos.  Quando seus próprios mundos, digo, o que estão inseridos, se desabam ao redor. O tempero visual que rege a vida se azeda, e se distancia. Eles pecam. Sim, eles certas horas são seres supremos e intocáveis, e em outras... Pecam. Contradizem suas palavras e ações. Mas não que suas palavras valham menos que as ações. Muito pelo contrário, eles valorizam mais as suas palavras do que suas vidas. É fácil enganá-los. Pode agir errado, e falar o certo e pronto, conquistou-os. E mesmo em qualquer estado errôneo, desencontrado, desleixado, incabível, eles não mentiriam, pois, os mesmos, vivem da sinceridade de suas frases. Escritores carregam a sombra de si. O ego inflado e o coração murcho. Principalmente os poetas, esses sofrem de qualquer modo: parnasiano, romântico, barroco... São melancólicos demais para o mundo e, o mundo é melancólico demais pra eles. E aí está seu combustível artístico.

Eu deveria ter sabido de tudo que agora digo antes de escrever meu primeiro verso, minha primeira carta, minha redação do vestibular, antes mesmo, de ter descrito minha primeira admiração pelos céus estrelados ou pelo pôr-do-sol de uma praia, ou montanha qualquer.

sábado, 21 de janeiro de 2012

1/2

Porque metade de mim se perdeu no vazio da indiferença. Fez morada ao primeiro anoitecer da impaciência. Caçou medo para poder se alimentar. Bebeu o néctar da destemperança em cuia de dúvida. Sentou-se ao mirante do desengano. Penou com afinco quase mórbido. Somente por ter, como único objetivo, a melhor vista possível para o amanhecer do sorriso no rosto de quem levou a outra metade embora.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Prelúdio

Nada disse. Reparei. Olhei. Fitei. Tinha belos olhos. Ora arregalava-os, como quem estava sem seus óculos. Ora recolhia-os, não sendo mais necessário visualizar seu entorno. Olhos bastante conhecidos. Olhos que pareciam cumprimentar a todos como um velho prefeito de cidade pequena. "Seja bem-vindo" - diziam-me, os olhos.

Não era do tipo tagarela. Era afetuosa, expontânea. Vez ou outra explodia em movimentos bruscos. Assim eram seus abraços que, mesmo sem razão evidente de existir, entregavam-se. É o tipo de abraço que transmite uma energia entre as epidermes que se chocam. Deixando a pele marcada, deixando cheiro, rastros de vivacidade. Quando falava, era ligeira. Se existiam vírgulas, eram grudadas às palavras.

De cá, eu procurava uma brecha que abreviasse meu desejo: uma medida, uma concordância verbal, uma angulação, até um cílio mais levantado que os demais. Ao reparar minha inquietude, ela me sorriu. Sorriu, assim, sem finalidade. E o meu mundo - ah, o meu mundo... - nunca mais foi o mesmo.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Enquanto Chovia

Saí eu de uma festa, animado. Mas a chuva que caia do lado de fora insistia em gelar minha alma. Me despedi de duas amigas que comigo se aventuraram. Fiz sinal pra um táxi que passara. E ele... passara. Fiz sinal pro próximo. Abri a porta e sentei no banco do carona - não faço esse tipo que senta no banco de trás, com ar pomposo e cheio de si. Gosto de sociabilidade.

- Essa chuva é bom pra chegar em casa e dormir com aquele barulhinho, né? - Puxou conversa o que sentava à esquerda.

- Exato. Hoje em dia existem uns sites que simulam esse som da chuva. Mas o bom é o natural mesmo. E na minha rua ainda tem aqueles gatos que miam a noite toda. Em dias chuvosos eles somem.

- Ah, minha mulher tem um gato.

- E você gosta?

- Gostar dele, eu gosto. Mas não sei se a recíproca é verdadeira.

- Gatos...

- É, eu gosto de passarinhos. Tenho um trinca-ferro que canta que é uma beleza nas manhãs de sol. - Pensei: "Quem gosta de passarinhos não os tem". Mas não quis entrar nos meus idealismos naquele momento.

- Deve ser bonito de se ouvir.

- Esse sinal aqui é meio chato... - murmurou - Mas e a festinha que você tava? Muita menininha?

- Ih, cara. Tem casos onde é melhor ter uma só. Mulher já é bicho perigoso. Juntando muitas no mesmo lugar então...

- Isso é verdade. "Ter uma só", então você é do tipo que prefere namorar. Com essa idade? Tá fora da crista da onda. - Disse, usando uma gíria fora da crista do século.

- Não, na verdade não. Apesar de meus namoros terem sido razoavelmente longos. Eu prefiro estar com alguém do que ter alguém. "Ter" é de uma sensação de posse, definida conforme o desenvolvimento dessa sociedade materialista que nos encontramos, que eu não admiro. "Estar" é de uma sensação de companheirismo, cumplicidade, é não estar acima ou abaixo, é estar ao lado.

- Gosto da sua dialética! Você deveria escrever essas suas engenhosidades. Já pensou em ter um blog? Meu sobrinho tem um que ele escreve umas coisas, mas não entendo muito bem disso não.

- Blog? Eu? Não. Sou muito intimista. Me sinto exposto, ainda que de uma forma segura, quando alguém me lê.

- Vou ligar uma música. Quer ouvir música?

- A conversa está agradável, pra mim está bom só com o barulho da chuva.

- Então tá ok!

- A próxima saída da Linha Amarela, heim!

- Conheço esse Rio de Janeiro de cabo à rabo, meu amigo, pode deixar. - ofendeu-se.

- Mas voltando a falar de mulheres. Estou em uma enrascada daquelas, amigo...

- Ih! Já vi tudo!

E a conversa intimista continuou de um modo complacente. E continuou. E continuou... Até que eu paguei a corrida. Houve um aperto de mãos. Saí do carro amarelo e azul pro meu portão de cor verde. Ao adentrar em casa, concluí: "Que engraçado esses psicólogos que fazem bico de taxista".